Arquivo de literatura

a vontade da terra revisitada

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , , on Julho 6, 2010 by João Carvalho

Onde a dúvida se atenua na esperança do sol nos cabelos ao fim da tarde. Onde a fala se cala e se perpetua no silêncio dos olhos murmurando o amor. Onde tudo é triste porque o amor existe. E faz calar a dor. Onde no mar impossível desse silêncio no azul da tarde se desfazem as lágrimas não caídas da alma. Onde te vejo no sol do verão quente que não começa. Onde te anunciei o amor que não te digo. Onde me perco no temor da palavra para que não te agrida. Onde te quero ao fim do dia e no nascer da madrugada e depois de novo ao adormecer porque a noite ainda é fria. Onde me renuncias no momento em que me olhas. Onde me olhas renunciando-me depois com os olhos quentes. Onde tudo é frio no sabor do fim da despedida. Onde sobre o ombro te procuro e me relanço na esperança desvanecida. Onde te encontro como se fosses minha e murmuro o teu nome como se o meu coração o guardasse para que a alma não esqueça a chama da vida. Onde a dúvida se atenua no tempo do sabor do teu sorriso. E murmuro o teu nome. E murmuro a noite que se anuncia. Onde te refugias na certeza da tua vida. Onde te aguardo quero que saibas para sempre. Onde serias minha na loucura da dança matinal onde os cães nos acordam do desespero da noite tranquila. Onde eternamente de mim fazes parte desde esse momento da maré baixa do coração vazio. Onde penso que és a mulher da minha vida. Onde sempre te conheci em seca espera e hoje me renovo e encontro em ti com a certeza da fé que não mostrava. Onde sempre te amei no desconhecido do passado que não tivemos. Onde te amo no presente do futuro que te sonho. Onde no vento repentino as ervas se inclinam sob o teu perfume. Onde me deito sobre elas no amornar adormecido que me invade. Onde é clara a certeza da vontade desse sono profundo. Onde é rara a promessa desse acordar desesperado. Onde o gesto sem mágoa te mantêm a doçura. Onde a ternura se adensa nas tuas mãos tão pura. No perfumado aberto da palavra. No sensualíssimo olhar do desespero. Onde rodopiante se apressa o rio ao teu encontro e o destino vagaroso do mar ondula no silêncio. No entardecer da tristeza prolongado. No limiar da sombra que cai à tua espera. Desconcebo o que sou e ausente de mim próprio te sonho distante e feliz. Na esperança das mãos. Das mãos abertas suportando o vento benéfico das coisas que amas. Nas mãos às quais me entregaria num som derradeiro e definitivo que o amor pudesse ecoar. Nas tuas mãos nuas e nunca para mim. Nas tuas mãos desertas do calor húmido dos meus lábios. Nas tuas mãos no abraço dos meus olhos procurando os teus. Nas tuas mãos que se demoram nas coisas eternas que fazes. Nas tuas mãos que o vento entrelaça e morde carinhoso. Nas tuas mãos em que morreria descansado na certeza de que me cerrariam os olhos suavemente. Nas tuas mãos onde ainda vivo morro diariamente no ciúme desse vento calmo. Sim, no entardecer das mãos onde o vento morre triste e o amor se deita em sonhos prolongados.

E sei que és a mulher da minha vida. A mulher dos cabelos como cavalos do mar perfumando o dia amargo em sereno sobressalto. Como cavalos de assalto na areia branca da manhã preenchendo o ar no relinchar da vida. Perfumando a vida. Mulher alada mulher amada inteira nos rochedos da noite sonhada dessa maneira. Mulher esperada no desertar dos dias. Mulher ansiada na noite clara sem lua. Mulher onde o outono se despe das folhas nos teus olhos. Mulher que o outono abraça nas mãos dos plátanos a figura. Mulher que a terra conhece pelo alvo perfume dos pés de lua.

Onde te desejo nos tons verdes do mar e na crina galopante dos cabelos. Onde te desejo não há voltar. Onde te desejo no amarelo torrado da areia das ondas. Onde te desejo no horizonte longínquo do nevoeiro. Onde te desejo no som contínuo da vida. Onde te desejo no mergulhar da vida no vôo da ave repentina sobre o lençol da espuma verdejante da maré antes da terra se apoderar do cinzento dos teus olhos. Onde te desejo na planície ondulante dessa terra. Onde te desejo na certeza da vitória dessa guerra. Onde te desejo na cruz do casario branco do promontório. Onde te desejo no cheirar líquido das flores sobre os muros. Onde te desejo no contorno sibilante da paisagem dos rochedos. Onde te desejo nos caniços mareados pelo som do mar quando no vento descansam revoltados. Onde te desejo na areia que pisas e na água oca do mar que te contorna a figura. Onde te desejo na vontade inquieta dos braços que te deixam segura. Onde te desejo não há tristeza mas a alegria da vida nova e bela. Onde te desejo não há certeza mas a vontade da terra e do mar se dar a ela.

i

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Dezembro 29, 2009 by João Carvalho

A semana passada, apenas por ela, comprei o i. Após o 1º parágrafo quase que desistia, apenas por circunstâncias do tema em si. Mas aguentei e lá li a prosa. Depois li as outras. (A da Patrícia Reis é chata, saturante.)

Esta semana comprei novamente o i. Acho o i um jornal que facilmente pode dar o salto para uma magazine. Notícias, notícias tem pouco. Jornalismo, jornalismo também não, ou então tive azar nas edições. Tem histórias e muita prosa.
(A inveja é uma coisa muito feia.)
(Agora também tem a Grande Reportagem do Miguel Sousa Tavares.)

Não sei o que mais dizer do i. Se a Ana lá voltar a escrever volto a comprar.

O que está mal neste livro

Posted in só na minha cabeça with tags , , on Dezembro 4, 2009 by João Carvalho

é a sua imodéstia. Mas o que vai na cabeça destes novos “ficcionistas” para se julgarem tão “promissores”? Não há nem 1cm de diferença entre estes e aqueles jovens parvos a quererem ser os novos ídolos de outros tantos parvos. O homem até pode escrever bem – eu não sei, nunca o li, a não ser no blogue, e nesse espaço não tenho a certeza se é o próprio se o “ficcionista” que escreve – mas que fica mal o próprio usar esse argumento, fica.

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negócio ou literatura?

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Outubro 11, 2009 by João Carvalho

Embirro com algumas pessoas. De entre estas, embirro com alguns escritores, e, por isso, vão-me passando ao lado os livros e histórias que vão escrevendo. Agustina é uma desses casos, o Sousa Tavares outro e o Francisco José Viegas um outro, muito mais recente.
De Agustina nunca nada li, precisamente devido a esta aversão que não sei explicar, e que é certamente despropositada. Talvez porque sempre a confundi com Vera Lagoa fundadora de O Diabo. Mas é uma aversão que se vai esfumando com o tempo e sei que lerei profundamente os seus livros, um por um, por ordem cronológica, como se a acompanhasse pelo tempo e pela escrita, que, diga-se, é tudo, menos forma de se ler um escritor [isto de se ler um escritor também é assim qualquer coisa sem muito sentido, digo eu].
Em relação aos outros dois desconfio. Do primeiro, porque vejo gente (mulheres sempre) no comboio com o Equador metido em sacos de plástico, assim como se fosse a sandes de fiambre que não tiveram de tempo de comer ao pequeno-almoço em casa; retiram-no quando se sentam para iniciar a viagem, e guardam-no só no final sem nunca desviarem os olhos do dito calhamaço. Desconfio de livros que são metidos em sacos de plástico por mulheres que andam em comboios sub-urbanos e que não se dignam a olhar sequer a vida pela janela. Portanto, para o Miguel Sousa Tavares apenas tenho paciência para as crónicas de jornal, quando compro o jornal.
Do segundo, do Francisco José Viegas, desconfio apenas. Não conheço ninguém que tenha lido algum dos seus livros, como também não conheço ninguém que não o tenha feito por algum motivo em especial. Também desconfio que ele estaria à espera do Nobel para o tal Sr. Bolaño. O único que leio com agrado são as crónicas do Dr. Homem (filho), mas diga-se, o agrado surgiu antes de saber que um seria o outro, e agora, sinto-me enfastiado, e para já, não volto às bandas de Moledo com o mesmo entusiasmo de antes. A inveja é uma coisa feia, de facto. O Francisco José Viegas faz muita coisa e está em quase todo o lado neste nosso mundo literário. Quando o Francisco José Viegas, elogia um determinado livro no seu blogue, fico sempre com a dúvida das razões porque o faz, será porque o livro é bom?, será porque o livro é editado pela sua editora?, as duas coisas ao mesmo tempo?, será porque o escritor é bom? Quando coloca na capa da revista que dirige o autor do mesmo livro que elogiou no seu blogue, entretanto também elogiado por outros blogues amigos, editado pela sua editora, fá-lo devido aos elogios dos críticos, entre os quais ele, ou fá-lo porque o livro e autor são mesmo bons e devem ser lidos? É difícil perceber onde acaba a promoção, onde acaba o negócio, e onde começa a literatura. Por isso eu desconfio. Não compro e não leio. A não ser o tal Dr. Homem (filho).

(Em relação ao dito livro, 3 das melhores críticas ao estúpido frenesim à volta do mesmo estão, aqui aqui e aqui)

a natureza humana, tão bem explicada

Posted in só na minha cabeça with tags , on Outubro 5, 2009 by João Carvalho

[…] Não admira que, fora de si, e andando rápido, desse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa;[…]
E o homem empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranqüilamente.
Convém dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera, no espaço de uma hora, comoções opostas. Fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacífico. O diretor expôs atrapalhadamente o negócio, tornando atrás, saltando adiante, ligando e desligando as cousas. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até à varanda. Aí fez o diretor duas cortesias, – uma em cheio, antes de descer as escadas, – outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu a porta de vidro fosco, e na varanda, pendente do teto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu e saiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negócio que o afligia, mas os cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à casa do Palha.
Em dez minutos, tinha a alma espanada e restituída a si mesma, tais foram as mesuras do dono da casa, os apoiados de cabeça, e um raio de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá e charutos. O diretor fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar com desdém a venta esquerda, a propósito de uma ideia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do dono da casa.
Estava outro, quando chegou à rua; daí o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si própria, e a indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memória dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são os rapapés de Cristiano Palha.

Machado de Assis, Quincas Borba, Cap. XCVI

roer as unhas faz bem aos livros

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Abril 28, 2009 by João Carvalho

Á minha frente uma mulher lia. Completamente embrenhada na leitura, lia devagar. O braço apoiado no encosto do vidro e uma das mãos a segurar a cabeça inclinada. O livro, de capa dura, dizia alma e coração mas o autor não consegui descobrir. Leu a viagem toda. Uma mulher esperava do lado de fora, na plataforma, para entrar. Pelos sapatos da segunda que a primeira não calça percebo qual delas é mais inteligente, e também percebo, qual delas é uma mulher apaixonada pelas unhas da primeira que a segunda não rói. Também se pode perceber isto pelo absinto sonhador que tem nos olhos quando lê. Leu a viagem toda, e nunca mais a vi. É por isto que eu nunca, ou raramente, leio livros no metro. Para poder encontrar mulheres perdidas.

faz sol aqui e em são petersburgo

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Março 22, 2009 by João Carvalho

Assim farei Miss Woody, assim farei, na primeira oportunidade quando consigo me cruzar, onde

«milhares de modelos de chapéus, de vestidos, de lenços – leves, multicores -, aos quais chega a manter-se por dois dias a afeição das suas possuidoras»

nessa avenida desse outro palerma que não se chamando Nikolai, mas sim Pirogov e não menos militar que o primeiro, não menos também terá dado que falar nas conversas das senhoras dos bailes, com

«cinturas com que nunca sonhámos: delgadinhas, tão finas que nunca vão além da grossura de um gargalo de garrafa»

; mas talvez se apodere

«do nosso [meu] coração a timidez e o medo»

e a deixe respeitosamente seguir o seu caminho pela dita avenida, a si e à Allen. Mas duvido, duvido muito, que as encontre em tão mentiroso local qualquer que seja a hora.