Arquivo de fé

amantes

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Novembro 7, 2010 by João Carvalho

Seremos como dois pobres vagabundos
alongando as suas misérias na cidade,
por entre as ruas cobertas de lixo,
mas seremos ainda amantes.

Cobriremos as nossas duas faces
como a lua se cobre de negro,
quando se farta de tanta glória,
mas seremos ainda amantes.

Nos bairros negros da fome
os nossos corpos brilharão na luz fétida dos esgostos;
Nos olhos iluminados como archotes
seremos ainda amantes.

Como reis do estrume e da podridão
a nossa coroa será o arco-íris;
caminharemos no seu dorso até ao fim do mundo
como dois amantes.

Enfeitados com roupas de mil cores
confundiremos os olhos dos homens felizes
e cegaremos todos os outros para sempre.
E seremos ainda amantes.

Mesmo que a morte venha provar
o sabor dos nossos lábios,
escorrendo como sangue e lodo nas nossas veias,
ainda assim seremos amantes.

Seremos amantes para sempre,
enquanto as flores sangrarem
aromas de morangos e abelhas,
ao som dos nossos passos como mel.

(1989)

esse momento

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Outubro 25, 2010 by João Carvalho

Devia haver um domingo com um sol só para ti
de madrugada
onde a teu lado um frio triste desistisse nos teus ombros
uma noite que te deixasse assim ilesa
sem mais nada
uma manhã crescendo acesa de tudo o que já fomos

Devia haver a foz de um rio com o descanso da tarde
onde um céu de horizonte adormecesse em ti
o pensamento
um mar que te afogasse fundo a tua dor que arde
um silêncio se fizesse mudo   e fosse meu
esse momento

hoje terias 45 anos, “olhos sem cor”

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , , , , , , on Outubro 22, 2010 by João Carvalho

caiu uma noite de cimento
por cima dos teus olhos
e o tempo está quieto
faz horas que ali está
uma árvore talvez pudesse
arrancar uma lua dessa noite
e deixar-te a correr com o tempo
devagar
caiu uma noite sobre a tua árvore
e o tempo está quieto
o tempo está quieto
e tu passas  e abres ramos
tu passas  e abres olhos
devagar  sem cor

(2006)

e tu estás … aqui

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , on Setembro 30, 2010 by João Carvalho

Há um verde em ti com olhos de outono
e só quem não sabe o frio que faz em maio
não traz as folhas cheias de mãos para te dar
Há um verde   uma bruma
onde a manhã é   e os pássaros são
E em tudo encontro
um certo sabor fabricado para ti
uma sombra de tu não estares
está aqui   no meu sorriso
esboço um futuro
levanto os olhos e vejo o pássaro voar
espero   a manhã tem um tempo
e tu estás e eu aqui

pela tua mão

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , , on Setembro 27, 2010 by João Carvalho

hoje devia haver uma tarde azul de chuva no teu cabelo
às 18h horas em ponto devia chover como em Abril
hoje devia ser já Primavera neste Outono
haveria água das tuas mãos a cair em gotas como beijos de criança
eu haveria de ficar e perguntar pelo teu nome
(e fugir do nada do frio da noite)
e descobrir que o tempo dos teus olhos esteve em mim
eternamente
pois te vi sorrir como não há mulher que o faça assim

hoje um calafrio sentiu o coração de um homem
e um vendaval deseja atravessar um parque caído de folhas tristes
pela tua mão

tempo de silêncio

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Setembro 15, 2010 by João Carvalho

Quem sabe, se algum dia, ao sentirmos cair sobre nós a mais violenta tempestade, não nos levantemos os dois para caminhar até ao fim. E talvez então nos possamos deitar junto aos rios de ternura, e descobrir a doçura das águas doces, e que tudo não passou e não foi mais que um imenso mar nos nossos olhos.

queria roubar as tristes palavras mudas

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Julho 31, 2010 by João Carvalho

queria roubar as tristes palavras mudas
que alguém deixou no teu coração
e deixá-las cair como folhas secas no chão dos plátanos
em pleno agosto
haverá um tempo em que as tuas mãos virão cheias
fazer uma colcha de árvores no meu abrigo
haverá um tempo com um sol de trapos coloridos
a romper pelos teus cabelos soltos
(que os queria sempre soltos na manhã)
haverá um tempo em que a juventude será o teu nome
haverá um tempo em que terei de partir um dia
mas até lá amor meu até lá
os frutos maduros do verão serão os teus lábios
e palavras não virão do chão crescer vazias
deixa o tempo fazer-se chuva dentro de ti
e a noite que tens só e triste morrer em tempestade
depois virás dizer-me da tua vida que ficou
eu estarei aqui rente ao inverno preparado
com todas as folhas do outono a arder nos meus olhos
e os meus braços abertos fechados sobre ti