Arquivo de família

hoje terias 45 anos, “olhos sem cor”

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , , , , , , on Outubro 22, 2010 by João Carvalho

caiu uma noite de cimento
por cima dos teus olhos
e o tempo está quieto
faz horas que ali está
uma árvore talvez pudesse
arrancar uma lua dessa noite
e deixar-te a correr com o tempo
devagar
caiu uma noite sobre a tua árvore
e o tempo está quieto
o tempo está quieto
e tu passas  e abres ramos
tu passas  e abres olhos
devagar  sem cor

(2006)

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20 anos…

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , on Setembro 7, 2010 by João Carvalho

 

“olhos sem cor”…

 

partir

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Agosto 21, 2010 by João Carvalho
Ilha da Culatra, 20 Agosto 2010

dois traços, duas sombras, dois caminhos, um beijo

Fim.

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , on Julho 27, 2010 by João Carvalho

O silêncio é um mar
com uma palavra muito grande dentro.

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Abril 12, 2010 by João Carvalho

O silêncio tem 295 km de auto-estrada
E à noite depois de tudo feito e pronto para o dia seguinte
jantado e tu a dormir meu filho
falta para atravessar um túnel com malmequeres
onde tudo te era novo e eu contava candeeiros
e tu contavas viadutos
e chegados a casa tu tinhas sempre mais
porque os viadutos como combinado valiam a dobrar

Agora dormes
Desculpa meu filho desculpa o vento frio e
os meus olhos mortos na estrada
apenas para não chegar nunca a tempo
do meu coração te parar de crescer

perecível

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Março 5, 2010 by João Carvalho

Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. É perecível. Esgota-se. O amor vale pouco.

(vão ler)

Margarida

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Janeiro 24, 2010 by João Carvalho

O meu padeiro deixa-me o pão todos os dias em cima do muro. Entre as 6:30 e as 7 da manhã, todos os dias, excepto ao domingos. Chama-se Luís. Eu chamo-lhe Sr. Luís. A mim ele chama-me pelo nome. Dentro de um saco, faça sol ou chuva, 4 bolas frescas de mistura. Quando conto isto dizem-me que é um luxo, ter um padeiro a deixar-nos o pão fresco em casa todos os dias de manhã. Eu pago a maior parte das vezes à semana, ao sábado, quando lá vou à padaria comprar o pão para o domingo. O Sr. Luís, que tem ou 48 ou 49 anos, segundo me disse um dia em conversa, embora não tenha fixado o número, é um homem baixo e quase atarracado, digo quase, pois não sendo gordo consegue fugir a tal característica. É um homem cheio de energia e boa disposição e muito dado à simpatia e conversa. À conversa e ao trabalho. A padaria do Sr. Luís, a “Padaria do Luís” como está escrito na parede à entrada, tem dois fornos que agora são aquecidos a lenha onde é cozido o pão (em tempos eram aquecidos com um queimador alimentado a gasóleo). O Pão de Mafra que depois é vendido por aí fora até Lisboa.
Na padaria trabalham agora Brasileiros onde antes havia Ucranianos. Além destes, os filhos do Sr. Luís. Tem alguns filhos o Sr. Luís. O Sr. Luís meteu-os a trabalhar na padaria desde cedo, ensinou-os a fazer pão. Andam todos por ali à solta. Um dos filhos joga futebol, nos juvenis, e trabalha na Padaria. Um outro mais velho já não quer saber do negócio. A filha do Sr. Luís também trabalha na Padaria. A filha do Sr. Luís está na universidade para um dia vir a ser médica dentista. Deve ter 18 ou 19 anos. Ao sábado, que é o dia em que lá vou comprar o pão para o domingo, ela está sempre lá, é ela que faz o pão. A filha do Sr. Luís, deve ter os olhos azuis, tem a pele branca, os cabelos claros debaixo da touca, as mãos finas, sempre cheias de farinha, e as faces sempre rosadas do calor.
Eu não sei se é um luxo ter um padeiro que nos deixa o pão fresco em cima do muro, todos os dias de manhã. Um padeiro como o Sr. Luís deveria ser um luxo para esta terra. Deveria ser melhor pago.
A filha do Sr. Luís um dia será doutora. Uma doutora que sabe como fazer pão e alimentar esta terra. Será um luxo para esta terra.

Chama-se Margarida e é a rapariga mais bonita que já conheci.
Um dia, quando tiver uma filha, vou chamar-lhe Margarida.