Arquivo de educação

Margarida

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , on Janeiro 24, 2010 by João Carvalho

O meu padeiro deixa-me o pão todos os dias em cima do muro. Entre as 6:30 e as 7 da manhã, todos os dias, excepto ao domingos. Chama-se Luís. Eu chamo-lhe Sr. Luís. A mim ele chama-me pelo nome. Dentro de um saco, faça sol ou chuva, 4 bolas frescas de mistura. Quando conto isto dizem-me que é um luxo, ter um padeiro a deixar-nos o pão fresco em casa todos os dias de manhã. Eu pago a maior parte das vezes à semana, ao sábado, quando lá vou à padaria comprar o pão para o domingo. O Sr. Luís, que tem ou 48 ou 49 anos, segundo me disse um dia em conversa, embora não tenha fixado o número, é um homem baixo e quase atarracado, digo quase, pois não sendo gordo consegue fugir a tal característica. É um homem cheio de energia e boa disposição e muito dado à simpatia e conversa. À conversa e ao trabalho. A padaria do Sr. Luís, a “Padaria do Luís” como está escrito na parede à entrada, tem dois fornos que agora são aquecidos a lenha onde é cozido o pão (em tempos eram aquecidos com um queimador alimentado a gasóleo). O Pão de Mafra que depois é vendido por aí fora até Lisboa.
Na padaria trabalham agora Brasileiros onde antes havia Ucranianos. Além destes, os filhos do Sr. Luís. Tem alguns filhos o Sr. Luís. O Sr. Luís meteu-os a trabalhar na padaria desde cedo, ensinou-os a fazer pão. Andam todos por ali à solta. Um dos filhos joga futebol, nos juvenis, e trabalha na Padaria. Um outro mais velho já não quer saber do negócio. A filha do Sr. Luís também trabalha na Padaria. A filha do Sr. Luís está na universidade para um dia vir a ser médica dentista. Deve ter 18 ou 19 anos. Ao sábado, que é o dia em que lá vou comprar o pão para o domingo, ela está sempre lá, é ela que faz o pão. A filha do Sr. Luís, deve ter os olhos azuis, tem a pele branca, os cabelos claros debaixo da touca, as mãos finas, sempre cheias de farinha, e as faces sempre rosadas do calor.
Eu não sei se é um luxo ter um padeiro que nos deixa o pão fresco em cima do muro, todos os dias de manhã. Um padeiro como o Sr. Luís deveria ser um luxo para esta terra. Deveria ser melhor pago.
A filha do Sr. Luís um dia será doutora. Uma doutora que sabe como fazer pão e alimentar esta terra. Será um luxo para esta terra.

Chama-se Margarida e é a rapariga mais bonita que já conheci.
Um dia, quando tiver uma filha, vou chamar-lhe Margarida.

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hoje é o 3º dia do resto da nossa vida

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Setembro 15, 2009 by João Carvalho

Já não quer que o acompanhe mas eu vou ainda assim, mais nervoso que ele, até ao autocarro. O autocarro é novo, a escola é nova. De repente sinto que me foge o miúdo. Eu fico para trás. A partir de hoje, que já não o levo até à escola, ficarei sempre para trás. Já não sou eu que me distancio dele, já não sou eu que o deixo seguro, mas sim o inverso. Por mais passos que der ele dará sempre mais um. Sempre foi assim afinal. E eu fico e espero que ele volte. Agora estarei sempre à espera que ele volte. Hoje é o 3º dia do resto da nossa vida. Mas este será um dia feliz.

no tempo das coisas inesperadas

Posted in só na minha cabeça with tags , , , , , , , on Agosto 30, 2009 by João Carvalho

Em 1976 (seria?), em Angola, no tempo em que as coisas vinham ter connosco, a Televisão Popular (do povo, portanto) de Angola, tal como outras televisões, emitia filmes sempre em dias certos; ou melhor, sempre no mesmo dia. Neste caso era à quinta-feira (seria?, a memória já me atraiçoa…). Era um tempo em que a televisão fechava à noite. A noite quintas-feira tornou-se assim a noite do filme, como, aliás, aconteceu com as quartas-feiras num período da RTP. Era um hábito, mas um daqueles inesperados, pois a maior parte das vezes só se sabia o filme desse dia no próprio dia, e, por vezes, o filme mudava de nome entre o momento do anúncio e o da transmissão – que não sendo muito largo ainda ssim permitia estas trocas – por motivos inesperados e técnicos. Mas não é isto que importa; o que importa é que tenho na minha memória que um desses filmes  foi “Sacco e Vanzetti” com música de Ennio Morricone. Ontem acordei com uma imagem do filme na cabeça, embora também acredite que possa não ser desse filme. Se é ou não, é algo que também não possui muita importância. O importante é a memória do filme, da história, e de tudo o que a história do filme representa. E claro, a música de Ennio Morricone.

Nesse tempo os filmes vinham ter connosco, as coisas vinham ter connosco, a história vinha ter connosco. Aprendia-se. Que melhor forma de aprender sobre a justiça, a liberdade, o racismo, a xenofobia, os direitos fundamentais?

Os miúdos de hoje, com oito anos, estão destinados ao peixinho nemo e aos bailes e cantorias de beldades que se auto-promovem e auto-pavoneiam pelo ecran televiso e de gordos a transpirar pelo país triste e em festa.

fim 1º ciclo

Posted in só na minha cabeça with tags , , , on Junho 18, 2009 by João Carvalho

estou tão cansado

ordenha

Posted in só na minha cabeça with tags , , on Maio 18, 2009 by João Carvalho

– como correu hoje a prova?
– muito bem, super-fácil…
– ah foi…?
– era quase tudo de meter números e cruzinhas, só havia lá umas frases para completar com os tempos dos verbos…, mas era fácil, porque o indicativo tava lá escrito para ajudar…
– pois… [entoação de quem já tá a ver o esquema]
– sim, aquilo foi mais fácil que ordenhar uma vaca!