amantes

Seremos como dois pobres vagabundos
alongando as suas misérias na cidade,
por entre as ruas cobertas de lixo,
mas seremos ainda amantes.

Cobriremos as nossas duas faces
como a lua se cobre de negro,
quando se farta de tanta glória,
mas seremos ainda amantes.

Nos bairros negros da fome
os nossos corpos brilharão na luz fétida dos esgostos;
Nos olhos iluminados como archotes
seremos ainda amantes.

Como reis do estrume e da podridão
a nossa coroa será o arco-íris;
caminharemos no seu dorso até ao fim do mundo
como dois amantes.

Enfeitados com roupas de mil cores
confundiremos os olhos dos homens felizes
e cegaremos todos os outros para sempre.
E seremos ainda amantes.

Mesmo que a morte venha provar
o sabor dos nossos lábios,
escorrendo como sangue e lodo nas nossas veias,
ainda assim seremos amantes.

Seremos amantes para sempre,
enquanto as flores sangrarem
aromas de morangos e abelhas,
ao som dos nossos passos como mel.

(1989)

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