a vontade da terra revisitada

Onde a dúvida se atenua na esperança do sol nos cabelos ao fim da tarde. Onde a fala se cala e se perpetua no silêncio dos olhos murmurando o amor. Onde tudo é triste porque o amor existe. E faz calar a dor. Onde no mar impossível desse silêncio no azul da tarde se desfazem as lágrimas não caídas da alma. Onde te vejo no sol do verão quente que não começa. Onde te anunciei o amor que não te digo. Onde me perco no temor da palavra para que não te agrida. Onde te quero ao fim do dia e no nascer da madrugada e depois de novo ao adormecer porque a noite ainda é fria. Onde me renuncias no momento em que me olhas. Onde me olhas renunciando-me depois com os olhos quentes. Onde tudo é frio no sabor do fim da despedida. Onde sobre o ombro te procuro e me relanço na esperança desvanecida. Onde te encontro como se fosses minha e murmuro o teu nome como se o meu coração o guardasse para que a alma não esqueça a chama da vida. Onde a dúvida se atenua no tempo do sabor do teu sorriso. E murmuro o teu nome. E murmuro a noite que se anuncia. Onde te refugias na certeza da tua vida. Onde te aguardo quero que saibas para sempre. Onde serias minha na loucura da dança matinal onde os cães nos acordam do desespero da noite tranquila. Onde eternamente de mim fazes parte desde esse momento da maré baixa do coração vazio. Onde penso que és a mulher da minha vida. Onde sempre te conheci em seca espera e hoje me renovo e encontro em ti com a certeza da fé que não mostrava. Onde sempre te amei no desconhecido do passado que não tivemos. Onde te amo no presente do futuro que te sonho. Onde no vento repentino as ervas se inclinam sob o teu perfume. Onde me deito sobre elas no amornar adormecido que me invade. Onde é clara a certeza da vontade desse sono profundo. Onde é rara a promessa desse acordar desesperado. Onde o gesto sem mágoa te mantêm a doçura. Onde a ternura se adensa nas tuas mãos tão pura. No perfumado aberto da palavra. No sensualíssimo olhar do desespero. Onde rodopiante se apressa o rio ao teu encontro e o destino vagaroso do mar ondula no silêncio. No entardecer da tristeza prolongado. No limiar da sombra que cai à tua espera. Desconcebo o que sou e ausente de mim próprio te sonho distante e feliz. Na esperança das mãos. Das mãos abertas suportando o vento benéfico das coisas que amas. Nas mãos às quais me entregaria num som derradeiro e definitivo que o amor pudesse ecoar. Nas tuas mãos nuas e nunca para mim. Nas tuas mãos desertas do calor húmido dos meus lábios. Nas tuas mãos no abraço dos meus olhos procurando os teus. Nas tuas mãos que se demoram nas coisas eternas que fazes. Nas tuas mãos que o vento entrelaça e morde carinhoso. Nas tuas mãos em que morreria descansado na certeza de que me cerrariam os olhos suavemente. Nas tuas mãos onde ainda vivo morro diariamente no ciúme desse vento calmo. Sim, no entardecer das mãos onde o vento morre triste e o amor se deita em sonhos prolongados.

E sei que és a mulher da minha vida. A mulher dos cabelos como cavalos do mar perfumando o dia amargo em sereno sobressalto. Como cavalos de assalto na areia branca da manhã preenchendo o ar no relinchar da vida. Perfumando a vida. Mulher alada mulher amada inteira nos rochedos da noite sonhada dessa maneira. Mulher esperada no desertar dos dias. Mulher ansiada na noite clara sem lua. Mulher onde o outono se despe das folhas nos teus olhos. Mulher que o outono abraça nas mãos dos plátanos a figura. Mulher que a terra conhece pelo alvo perfume dos pés de lua.

Onde te desejo nos tons verdes do mar e na crina galopante dos cabelos. Onde te desejo não há voltar. Onde te desejo no amarelo torrado da areia das ondas. Onde te desejo no horizonte longínquo do nevoeiro. Onde te desejo no som contínuo da vida. Onde te desejo no mergulhar da vida no vôo da ave repentina sobre o lençol da espuma verdejante da maré antes da terra se apoderar do cinzento dos teus olhos. Onde te desejo na planície ondulante dessa terra. Onde te desejo na certeza da vitória dessa guerra. Onde te desejo na cruz do casario branco do promontório. Onde te desejo no cheirar líquido das flores sobre os muros. Onde te desejo no contorno sibilante da paisagem dos rochedos. Onde te desejo nos caniços mareados pelo som do mar quando no vento descansam revoltados. Onde te desejo na areia que pisas e na água oca do mar que te contorna a figura. Onde te desejo na vontade inquieta dos braços que te deixam segura. Onde te desejo não há tristeza mas a alegria da vida nova e bela. Onde te desejo não há certeza mas a vontade da terra e do mar se dar a ela.

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