Um bicho escamoso e purulento
com paisagens diáfanas por dentro
vi eu um dia olhar as horas ao longe
e resolutamente arregaçar as calças até às nuvens.
Deves trazer a lanterna meu amor
que um pouco de mar fez falta hoje neste quadro
ao centro deste engarrafamento automóvel
de extremo a extremo dos nossos sonhos.
Mas a nuvem doente foi enfim ao médico
como uma gaivota vai ao prestamista
e necessário e urgente se tornou
extrair-lhe logo ali
a arca dos manuscritos
que provocava a inflamação.
Celebrou-se então um desafio de futebol
e aquele jovem desportista que tombava redondo
se lhe tocavam com um dedo
olhava-nos
em êxtase.
Naquele dia
imaginado à imagem deste animal sem fundo
que alguns julgam inexistente
e que tem as patas cravadas no seu Deus
e os olhos furtivos
na sua distante terra natal
no ponto extremo do fuste
encontrámo-nos por fim.
Oh meu amor
traz todas as lanternas do mundo
e o sol também
para ajudar a fazer de novo
a lua perdida
e o mar naufragado.

Artur do Cruzeiro Seixas, Obra Poética, vol. 1, pág. 82
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