No sossegar da noite

No sossegar da noite
onde a ausência do teu nome
se pronuncia devagar
e devagar me deixo estar
para que de dentro dessa ausência
eu te possa amar
ainda que mais longe de ti
não poderia eu ser
mas porque mais perto
eu te queria ter
No sossegar da noite
no lento abandonar dos grilos
ao vociferar nocturno
que me impede outros múrmurios
de outros nomes que não o teu
que o queria estendido nas ervas frescas
arrefecido no súbito anoitecer
de uma lua quase nada quase a morrer
No sossegar da noite
quando a brisa do mar nos refresca na face
o ar pesado que nos queda da mágoa dos dias
e de braços abertos esperamos que nos enlaçe
a coragem pressentida que antes nos fugia
No sossegar da noite
quando o tempo nos parece inacabável
pela distância do desejo
que tão inalcançável
não nos cabe num beijo
que por ser imaginado
ainda mais é desejado
No sossegar da noite
onde os vultos se desconhecem
nas sombras dos muros altos
onde os gatos se entristecem
e avaliam alto o seu salto
No sossegar da noite
onde frio me desencontro
na inquietude de um silêncio pálido
de uma casa que já não é a minha
mas onde ainda respiro para um futuro
de um fogo certo e cálido
que desejava mais seguro
No sossegar da noite
digo: no sossegar do abandono do teu sorriso
que não virá sorrir-me quanto eu desejava
e que quanto mais me sorria mais me abandonava
pelo menos assim me parecia
que quanto mais eu o queria ver
mais ele se escondia e nada deixava transparecer
No sossegar da noite
no estar-se assim sem nada
sob a lua sossegada
e sem ninguém que nos transpire
que nos leve e nos respire
no calor da pele amaciada
para uma noite mais amada
No sossegar da noite
onde o cheiro adubado e fértil dos campos
arde no vento que chega baixo das rochas azuladas
e no cinzento-púrpura-violeta do poente anoitecido
se descobre um horizonte mais longe a ocidente
e nos deitamos em sonhos a descobrir
algo que restou de um amor esquecido
que perdido e velho julgávamos não sentir
No sossegar da noite
neste amaciar do tempo que nos passa lentamente
no corromper da vida verdadeira
pela necessidade da vida exigente
que de actuar não nos deixa outra maneira
senão a de ser indiferente para ser coerente
com aquilo que se diz que o tempo tudo cura
embora saibamos que o tempo só perdura
o que de bom e de mau se fez na loucura
de uma vida que se desfez e se desfaz
no amaciar do vento que o tempo traz
No sossegar da noite
no desespero do silêncio em meu redor
que se impõe da ausência do amor
que me deixa desesperado mas ainda não e nunca desertor
No sossegar da noite
onde torno a dizer o silêncio se faz mar
que só não é silêncio por um suave estertor
que se levanta da amargura e faz calar até a dor
esta palavra repetida até mais não até ao fim
que de tanto repetida já provoca algum calor
a quem a diz e amena a sente e faz até supor
que do fim da calma deste suave torpor
virá a calma enfim de um suave resplendor
No sossegar da noite
no agonizar das horas que passam sem nada
depois do nada que passou
no agonizar do verso da palavra do som
quando é o tédio a única saída
para justificar o desempenho das tarefas corriqueiras
como regar a relva duas vezes ao dia
mas regá-la com vontade e em voz alta
para fingir que é indispensável
que aquela seja a hora certa de regá-la
e aproveitamos regamos também o limoeiro
que de limoeiro só tem o nome
o que torna até lisongeiro chamá-lo assim
mas que sabemos algum dia dará limões
que serão aproveitados no chá de alguns serões
e para que tenhamos uma vida sã
havemos de inventar um chá de limão mais hortelã
No sossegar da noite
quando o recordar de um passeio pelos campos ao fim da tarde
nos traz um mar azul aberto no vale ao fundo
e volto ao teu nome marcado pela secura da terra
seca da chuva caída na manhã
insuficiente para alagar o que quer que fosse
e volto ao teu nome fixo e doce na paisagem
amarelo e verde pelos campos nos teus olhos
que eram os teus passos que ali eu queria ouvir
no pó levantado e seco de um estio já cansado
e que sendo o teu nome ali o mais chamado
fosse levado aos poucos no vento da poeira
até uma primavera longínqua a reflorir
No sossegar da noite
quando as lágrimas nos surgem nos olhos num sentir triste
e nos deparamos com o que nos parece ser o fim
porque já nada existe do brilho da cor
que de ti me chegava sem saberes
enfim do amor sonhado no silêncio escondido
e por fim dito ou melhor escrito
e secamos as lágrimas num gesto firme e lento
com as palmas das mãos descendo pela face
lamentando o que somos o que temos o que fizemos
e chorando em seco dentro e fundo o que não temos
sabemos o fim que somos e o fim que seremos
No sossegar da noite
quando tudo o que me vem
me vem num desperdício voluntário
numa entrega derrotada
num abismo sem eco e sem volta
é ainda ao teu nome que regresso
num desejo de sentir alguma coisa
como o amor nos dias frios
é um sentir que me desanda o pensamento
sem saber para onde vai nem por onde anda
No sossegar da noite
quando já não vem a palavra certa
nas costas de uma autêntica lua cheia
atento aos rumores do longe e perto dos lugares
regresso ao teu nome
regresso ao teu nome dito no silêncio
ao teu nome deitado sobre as ervas
ao teu nome olhado sob a lua
florindo sobre os campos
aberto sobre o mar
ao teu nome pisado nos caminhos
ao teu nome que apenas eu sei pronunciar
e aí nesse instante nesse instante anoitecido
que o tempo nos permite contemplar
como um sol numa noite sossegada
deixo-me estar deixo-me ser
no silêncio da lua com a brisa do mar
esperando o pó do destino num lento amanhecer

(Setembro 2003)

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