o ser mais estranho

Um homem sonha com uma mulher. Um sonho que agora não consegue recordar. Agora mesmo ia escrever qualquer coisa de que se esqueceu. Acontece que entre o pensar e o escrever o ser mais estranho lhe entrou pela casa dentro, como a noite.
Esse homem pensa que devia ter ficado ao seu lado aquela noite. Podia ter adormecido com a cabeça sobre o seu colo ou simplesmente sobre as suas mãos apoiadas na beira da cama. Mandaram-no embora.
Um homem descobre que pode dormir de joelhos levantados como as grávidas. Tem o hábito de dormir de lado com as pernas flectidas o que lhe aprofunda a dor no joelho das dores, o esquerdo, o que leva com todos os objectos pontiagudos com que se cruza, o mesmo que o avisa que o tempo vai mudar. A mulher costumava dizer, esse teu joelho
Um homem pensa que esta posição das grávidas só deve mesmo interessar aos obstetras, evita que se baixem.
Um homem abandona uma mulher para morrer sózinha numa cama e, muito mais tarde, percebe que ela continua sem morrer amarrada a ele, numa noite em que o ser mais estranho lhe entrou pela casa dentro, como a noite.
Um homem transporta um saco branco. Um saco branco com objectos amontoados. Um homem transporta um saco que recebeu das mãos de alguém responsável pelas coisas finais. Deve ser terrível ser responsável pelas coisas finais. Talvez não haja ninguém responsável pelas coisas finais. Um homem sabe, porque pensou nisto muito mais tarde, que a urgência de ocupar de novo o espaço livre para alguém às portas da morte não se compadece com sentimentalismos de outra ordem, como procurar não amontoar objectos num saco branco. Um homem pensa que às portas da morte é uma expressão sem sentido. Um homem caminha com um saco branco, lá dentro um desenho, um balão mágico voador com destino a um mundo divertido. Um homem caminha de regresso a casa transportando um saco branco cheio de objectos amontoados, uma almofada e um desenho. O homem guarda o desenho e a almofada. A almofada onde uma mulher reposou a cabeça para morrer. Com o tempo o homem deixou de conseguir reconhecer a almofada no meio das restantes. O homem só pensará nisto muito mais tarde, numa noite em que terá febre e não conseguirá adormecer, e então, depois de muito tempo e vencido, sonhará um sonho em que o ser mais estranho lhe entra pela casa dentro, como a noite.
Uma mulher sem tempo, olha pelo última vez o seu filho ser levado para casa. Um homem sabe isto porque vê os olhos encharcados da mulher, e por um momento, hesitante, quer voltar para trás com o seu filho pela mão, para ficar um pouco mais junto à sua mãe. Um homem não sabia que seria a última vez e por isso leva o seu filho e hoje o ser mais estranho entra-lhe pela casa dentro, como a noite.
Um homem pensa nisto muito tempo depois quando o ser mais estranho lhe entrou em casa, como a noite.
Um homem sabe que lhe vão telefonar e por isso prepara-se, acorda cedo e faz a barba. Depois, o ser mais estranho entra-lhe pela casa dentro, como a noite.
Um homem não hesita como no dia em que teve de levar o seu filho para casa, e escolhe o caixão mais simples que lhe apresentam para o funeral onde a mulher mais simples será levada. Depois, um homem regressa a casa onde o seu filho o aguarda. Um homem tem finalmente a conversa que durante muito tempo pensou ter.
Filho, a mãe morreu. E depois, o ser mais entra-lhe pela casa dentro, como a noite.
Um homem guarda objectos especiais em sítios especiais. Outros existem pela casa porque já não pertencem a este tempo e são deixados em paz.
Um homem tem molduras vazias para pendurar em paredes vazias. De cada vez que escolhe uma fotografia o ser mais estranho entra-lhe pela casa dentro, como a noite.
Um homem abraça o seu filho e beija-o, e este beija o seu pai.
Feliz ano novo, filho. Feliz ano novo, pai.
As paredes continuam vazias e o ser mais estranho continua a entrar-lhe pela casa dentro, como a noite.

(Janeiro, 2010)

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