Margarida

O meu padeiro deixa-me o pão todos os dias em cima do muro. Entre as 6:30 e as 7 da manhã, todos os dias, excepto ao domingos. Chama-se Luís. Eu chamo-lhe Sr. Luís. A mim ele chama-me pelo nome. Dentro de um saco, faça sol ou chuva, 4 bolas frescas de mistura. Quando conto isto dizem-me que é um luxo, ter um padeiro a deixar-nos o pão fresco em casa todos os dias de manhã. Eu pago a maior parte das vezes à semana, ao sábado, quando lá vou à padaria comprar o pão para o domingo. O Sr. Luís, que tem ou 48 ou 49 anos, segundo me disse um dia em conversa, embora não tenha fixado o número, é um homem baixo e quase atarracado, digo quase, pois não sendo gordo consegue fugir a tal característica. É um homem cheio de energia e boa disposição e muito dado à simpatia e conversa. À conversa e ao trabalho. A padaria do Sr. Luís, a “Padaria do Luís” como está escrito na parede à entrada, tem dois fornos que agora são aquecidos a lenha onde é cozido o pão (em tempos eram aquecidos com um queimador alimentado a gasóleo). O Pão de Mafra que depois é vendido por aí fora até Lisboa.
Na padaria trabalham agora Brasileiros onde antes havia Ucranianos. Além destes, os filhos do Sr. Luís. Tem alguns filhos o Sr. Luís. O Sr. Luís meteu-os a trabalhar na padaria desde cedo, ensinou-os a fazer pão. Andam todos por ali à solta. Um dos filhos joga futebol, nos juvenis, e trabalha na Padaria. Um outro mais velho já não quer saber do negócio. A filha do Sr. Luís também trabalha na Padaria. A filha do Sr. Luís está na universidade para um dia vir a ser médica dentista. Deve ter 18 ou 19 anos. Ao sábado, que é o dia em que lá vou comprar o pão para o domingo, ela está sempre lá, é ela que faz o pão. A filha do Sr. Luís, deve ter os olhos azuis, tem a pele branca, os cabelos claros debaixo da touca, as mãos finas, sempre cheias de farinha, e as faces sempre rosadas do calor.
Eu não sei se é um luxo ter um padeiro que nos deixa o pão fresco em cima do muro, todos os dias de manhã. Um padeiro como o Sr. Luís deveria ser um luxo para esta terra. Deveria ser melhor pago.
A filha do Sr. Luís um dia será doutora. Uma doutora que sabe como fazer pão e alimentar esta terra. Será um luxo para esta terra.

Chama-se Margarida e é a rapariga mais bonita que já conheci.
Um dia, quando tiver uma filha, vou chamar-lhe Margarida.

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