o velho

Um velho, corcunda, de mãos forçadas de trabalho, segurando um saco de plástico qual trouxa de roupa, entrou na carruagem de olhos fixos numa ideia apenas, a de arranjar um lugar sentado. A carruagem vai cheia de gente em pé que lhe atravanca a passagem e ali fica o velho corcunda, segurando-se ao poste vertical no centro, e assim lhe vi as mãos e as unhas pretas. Cabisbaixo, vai controlando os assentos, ansioso, mas ninguém quer reparar no velho corcunda. Os olhos da gente são atirados ao chão ou ao vazio do túnel escuro e ao reflexo invertido das vidas ali presentes, os ouvidos são tapados por phones, perfeitos isolantes das vidas alheias. Ninguém vê, ninguém ouve, ninguém cede o seu lugar ao velho, como se todos se revissem naquela figura desgraçada de medo, incerteza e dor por um lugar num mundo que já o deixou.

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